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Solidão

Se não temos aptidão para fazer amigos, remodelemo-nos até consegui-la. A solidão só vale como remédio, como jejum - não constitui alimento; o carácter, como Goethe o viu com tanta clareza, só se forma no tumulto da vida. Se nos tornamos excessivamente introspectivos, estamos na senda da perdição, ainda que o nosso negócio seja a psicologia; olhar com persistência excessiva para dentro de nós mesmos é provocar o desastre do jogador de ténis que conscientemente mede a distância, os ângulos e a força dos golpes, ou como o pianista que pensa nos dedos. Os amigos são necessários, não só porque nos ouvem, como porque se riem para nós; através dos amigos conseguimos um pouco de objectividade, um pouco de modéstia, um pouco de cortesia; com eles também aprendemos as regras da vida, tornando-nos melhores jogadores dos jogos que a compõem. Se queres ser amado, sê modesto; se queres ser admirado, sê orgulhoso; se queres as duas coisas, usa externamente a modéstia e internamente o orgulho. Mas o ...
Se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que devaneia do que pelo que pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais directa e profundamente saia da nossa alma do que as nossas aspirações irreflectidas e desmesuradas para os esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.

Diante da imensidão fria

Já passava das quatro horas da tarde quando Orvil sentou-se completamente inerte e sozinho a beira do lago. Ficou alí, parado, persuadido,complacente e perplexo. Enquanto todos os seus amigos partiram pra dar um mergulho, ele que não sabia nadar pôs-se somente a contemplar a imensidão do lago denso e amedrontador e automaticamente começou a pensar no determinado o momento e por que razão sua própria vida passou a lhe parecer tão insignificante comparada ao tamanho do mesmo lago .Uma vida insignificante, ele assim já entendia há algum tempo, mas ao mesmo tempo era uma vida ainda cheia de acontecimentos que davam a ele o direito de dar a importância que ele bem entendesse mesmo aos fatos que são corriqueiros na vida qualquer pessoa. Pois assim como a imensidão do lago com o qual ele se deparava não existia simplesmente por nada, de uma hora pra outra e era feita por cada gotícula de água acumulada, por cada grã...

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente, Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, Quanto mais personalidade eu tiver, Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, Estiver, sentir, viver, for, Mais possuirei a existência total do universo, Mais completo serei pelo espaço inteiro fora. Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for, Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo, E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco. Cada alma é uma escada para Deus...

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso. Franz Kafka - Diário (1910)

Como vejo o mundo

É reduzido o número daqueles que vêem com os seus próprios olhos e sentem com o próprio coração. Mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega. Quem dera que os povos vissem a tempo, quanto terão de sacrificar da sua liberdade para escapar à luta de todos contra todos! A força da consciência e do espírito internacional demonstrou ser demasiado fraca. Apresenta-se agora superficialmente enfraquecida para consentir a formação de pactos com os mais perigosos inimigos da civilização. Existe, assim, uma espécie de compromisso, criminoso para a Humanidade, embora o considerem como sabedoria política. Não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens. Albert Einstein
Num dissentimento nunca mais vou levar qualquer coisa apenas para o lado pessoal e insolúvel. Afinal, custou pouco tempo pra que eu tivesse me contagiado pelas coisas do mundo, pelo outros e passasse a revezar com estes, os inúmeros papéis que a vida nos dá todo dia.Depois que isso inevitávelmente acontece nem eu nem ninguém nunca mais é e nem nunca vai ser cem porcento si mesmo,todos se tornam uma mistura inexplicável de todos. Admitir isso é difícil e tomada de consciência de certas coisas está reforçando em mim um raciocíno muitas vezes doloroso. Ao mesmo tempo que passo a tolerar mais o que costumava achar intolerável, o que era pra ser compreensível tem se tornado praticamente insuportável. Aí então na procura de alívio, muitas vezes só o álcool me faz reconhecer o quanto a água é mais importante. Isso deve ser um péssimo hábito de tortura, um esvaziamento provocado, calculado pra criar a possibilidade de ecos infinitos aos sentimentos mesmo sem continuar sabendo o que fazer dele...