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Mostrando postagens com o rótulo quase versos

Uivo

Quando um cão uiva não há dúvida alguma de que o uivo do cão cresce na raiz de seus ossos. Cão algum uiva sem ter razão, e estando uma única vez esse cão predisposto e preparado pra tanto, fatalmente e por toda coragem que tem, ele mesmo já admite pra si o tanto que lhe deve doer ter que deixar tantos ossos espalhados e a mostra só pela necessidade de um único uivo. Mas nem por isso esse cão se confunde diante daquilo que o cerca. De algum modo, por mais que seu esqueleto e espírito estejam ambos perdidos, espalhados ou simplesmente não passem de boa parte do que agora jaz integrando-se ao pátio, esse cão ainda que desossado, observa uma peça de roupa branca dependurada no varal, uma pilha de tijolos mofando num quanto qualquer e ainda assim se admira. Quanta coisa me aproxima desse ser canino que obviamente pertenceu a um dono mais do que descuidado e indigno. Coisas que os meus ossos ainda não sentem na pele e que os meus olhos ainda não veem. Se eu percebo o quanto sou míope, ma...

Ode à Separação

Nunca é tão tarde pra não mais separar O ar do nariz Os olhos da cara As unhas dos dedos O sangue das veias Os fios de cabelo da encouraçada cabeça Ou as orelhas do ouvido existente no tampo superior de determinados instrumentos de corda Mas quase sempre ainda é cedo quando se quer afastar A palavra da língua A caminhada do pé A água do mar A garrafa do bêbado A verdade do espírito Ou simplesmente o amargo do café que eu tomo enquanto não estou em aí pra isso ou aquilo.
De distancia já me basta a que existe entre minha cabeça e meu coração. Sim, me refiro exatamente à este órgão musculoso, voz secreta as vezes, peça angular numa intersecção, centro da sensibilidade e de toda afeição, que mesmo apesar de ser tão vacilante e cheio e de palpitação tem por lei a obrigação de irrigar sem mais e nem menos sangue os dois lados flutuantes e resistentes que ainda existem dentro da minha malemolente e confusa cabeça. E não! Eu não quero e nem vou dizer aqui que isto tem qualquer coisa de incrível. Por mais irracional que isto pareça, coração bate por que é motor. Já a cabeça, por mais que ainda penda a pensar seja entre os dentes ou in-dependente de ter coração, raramente esta mesma entende a razão que é a única capaz de explicar os seus próprios porquês.
Já nasci tendo febre, Ter paz pra mim, é manter uma lebre correndo solta em minhas veias ignorando meu sangue e nunca cabendo em qualquer espaço ou vão

Amiúde

Queria escrever pelos cotovelos Escrever com a ponta dos dedos Mesmo que não houvessem mais linhas Mesmo que me faltassem as tintas E eu não queria que lessem só com a boca E nem só com os olhos, E nem só com a lingua Queria que lessem com o corpo todo Que lessem até perderem o fôlego À deriva no mar até a primeira ilha.
Serei flor cheia de espinhos? porque ainda tenho aparente beleza se toquei e só pareci machucar? sabe, eu acho que tenho um eu feminino... e achei que é por isso que tanto insistem em me olhar Onde estou? Pra onde vou? Meus pensamentos me engolem... mas sou pragmático da saliva ao suor ... lágrimas também são pragmáticas... mas elas não rolam em qualquer lugar
Calo me no embalo dessa sorte que ainda dá calor à minha testa Não sou testa de ferro mas mesmo assim eu dou muita cabeçada por aí O ferro é frio como eu não quero ser, minha cabeça é dura mas meu sangue é quente e o coração eu não posso deixar endurecer Falo mais que o casco do barco toca a água ao navegar o mar Afundo me em pensamentos, as palavras são meus remos inúteis Pois remo contra correnteza forte, melhor deixar a correnteza me levar calado Quero acreditar que a correnteza é boa e não mais achar que eu devo remar até a morte E o mar que é a vida as vezes nos faz naufragar mas mesmo assim algo me diz que eu vou sobreviver mesmo cercado de tanto mar
Se eu olho e vejo mais do que está diante dos olhos e se mergulho e é tudo sempre tão fundo não posso ficar na superfície d'água feito óleo não vou viver feito um exânime, mesmo que eu seja um moribundo.
Algo floresce em mim e eu não sei o que é quem sabe meu hiato criativo esteja prestes a acabar mas se serei finalmente capaz de criar algo de novo que dom maior eu teria então? Eu olhei pela janela mas ninguém me viu E enquanto eu procurava pelo o que eu não sei o que é eu eu tentei desvendar tudo pra desvendar o que há aqui dentro e que daqui de dentro me leva compartilhar beijos coletivos em dias seguidos de festas e álcool em conversas malucas que parecem não ter mais fim Mas eu só ouço e quando falo é por que o que está dentro me escapa por que é forte o bastante pra acreditar que ainda pode derrotar uma vontade também existente de não querer mais enxergar e se fosse possível que também ninguém mais pudesse me ver Ah mas do que eu estou falando: será que eu mesmo sou capaz de me ver? através dos muros altos e espessos que rodeiam meu coração? Através da minha invisibilidade existente mesmo diante do espelho? Por que quando me sinto forte o espelho se quebra e o muro simplesmente...

Eu não vivo sem ter motivo

A vida inteira o que me fez despender energias pra mover minhas entranhas e músculos pra saír do lugar foi o fato de ter uma força externa lancinante agindo, alguma provável espécie de estímulo. Só que na maioria das vezes que tive a necessidade de locomover-me, acredito que o tenha feito exatamente pela total falta disso. E eu sei que isso é normal e que é assim que se vive, que não dá pra ficar se dependurando nas pessoas e coisas por aí e também não dá pra ficar sempre se rastejando e se lamentando por as vezes nada poder possuir. Mais cedo ou mais tarde eu de novo terei que ouvir o acaso dizer que é sozinho e com nada nas mãos que sempre deverei seguir. Ah mas pra que isso tudo então? Eu não vou mais sair do lugar se não tiver pelo menos algum motivo, e também não pode ser que motivo seja sempre não ter pra então precisar procurar, não pode ser que um motivo tenha sempre que ser o vazio que tantas vezes eu sinto, não pode ser que seja sempre só isso. É, na verdade eu não vou parar...
Da boca pra fora é possível ser tudo mesmo que a desarmonia entre fala e prática dê um nó na garganta de quem ainda assim acha que não disse tudo.

Saudade

Em desalento eu vou correndo pra escapar do tempo Tão desatento carrego também comigo a todo momento as sobras e os vestígios de quem um dia passou por mim Hoje mesmo o que encontrei foi um fio de cabelo E numa roupa guardada eu senti algum cheiro Que não era meu, que não devia mais estar ali Vai ver que este esqueceu-se de também ir embora Pequena parte de quem se foi mas que decidiu ficar Pra aliviar a aflição que eu sinto até agora Pois meu coração nem sempre entende Que as vezes quem parte não vai mais voltar
Por que essa correnteza fria? Porque ela quer tanto me levar? Não consigo entender o que eu via dentro de cada fresta que se abria Com a luz teimosa que pela janela fez-se entrar Com a maré alta que chegou até minha porta Me convidando pra me jogar no mar

O que ela realmente sabe

Um dia eu a vi quando ela esteve aqui depois de muito tempo E esse tempo também ja passou e tudo o que ficou sempre foi o mesmo E nunca se foi desde a primeira vez Apenas ela se foi , se vai e demora pra voltar E demorava a passar o que eu sentia quando ela estava aqui presente E demorava a passar toda a tristeza quando ela estava tão ausente E eu nunca soube ,nunca pude convence-la a ficar E eu nem mesmo sei se podia algo demonstrar Mas eu sei que ela sabia o que eu sentia quando aqui eu fiquei Ela sabe que eu sei o que ela sentiu quando ela se foi.
Estou só, aqui, sentado, De novo assim tão estático Apenas uma pequena parte se move Gravando todo este tempo que escorre Enquanto isso lá fora os pingos de chuva De gota em gota desmancham o meu desejo de fuga E as gotas caindo uma por uma transformam toda certeza em bruma
Eu estou arrependido de te-la colocado num lugar tão alto Eu estou muito cansado pra sustentar minha fé Acho que gostaria de dizer adeus Onde você esteve todo esse tempo? você sabia? você se importava? Todo dia eu a esperava chegar Eu me posicionava imovel Assistindo os meus ossos se corroendo Juntando os pedaços no chão Despedaçado por dentro Havia algum lugar pra mim em seu coração ? Mesmo que você o nega-se o tempo todo Mesmo que não houvesse nada de bom que te fizesse lembrar de mim Mesmo que não houvesse nada de bom Mesmo que não houvesse nada Mesmo que não Mesmo?