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Mostrando postagens com o rótulo quase crônicas

O criador sangra mas não sente dor. Daltônico que ainda é, sequer se intimida com o vermelho do seu próprio sangue.

O Criador era criança ainda quando certo dia (ou noite) inexplicavelmente de repente viu-se muito só. Não havia nada que pudesse livrá-lo do insondável tempo que o cercava, nada que pudesse distraí-lo de si mesmo no meio do seu silencioso nada. Então, naturalmente deixando-se contagiar por um estranho afã, o Criador decidiu inventar algo com que pudesse se divertir. A ideia lhe veio num salto, e ele então que não sabia evitar nada do que lhe vinha a cabeça, começou logo a criar um grandioso teatro. Ele era uma espécie de mágico quando algo lhe comovia e por isso mesmo sequer tinha que se pôr a pensar demais. Sendo assim, o Criador já foi criando tudo de maneira fervorosa e febril. Sua imaginação era tão criativa e clara que deixa mais do que claro porque ele se chamava O Criador. Na sua cabeça tudo ia surgindo tão fácil, tão em medida exata que desde os primeiros detalhes por ele imaginados sua alma já começava a se alegrar e produzir cada vez mais. Era uma alegria epopeic...

Diante da imensidão fria

Já passava das quatro horas da tarde quando Orvil sentou-se completamente inerte e sozinho a beira do lago. Ficou alí, parado, persuadido,complacente e perplexo. Enquanto todos os seus amigos partiram pra dar um mergulho, ele que não sabia nadar pôs-se somente a contemplar a imensidão do lago denso e amedrontador e automaticamente começou a pensar no determinado o momento e por que razão sua própria vida passou a lhe parecer tão insignificante comparada ao tamanho do mesmo lago .Uma vida insignificante, ele assim já entendia há algum tempo, mas ao mesmo tempo era uma vida ainda cheia de acontecimentos que davam a ele o direito de dar a importância que ele bem entendesse mesmo aos fatos que são corriqueiros na vida qualquer pessoa. Pois assim como a imensidão do lago com o qual ele se deparava não existia simplesmente por nada, de uma hora pra outra e era feita por cada gotícula de água acumulada, por cada grã...

Contraveneno

Sim, o amor, a compreensão e até mesmo o respeito aquilo que não se compreende, juntos tornam as pessoas mais bonitas e capazes de se sentirem mais felizes. Já a falta disso tudo? EAARGH! Que nojo! Mas existe a pena e ela é como um presentinho dado à quem julgamos incapazes ou inferiores, e é também como a migalha indiferente dada aos pobres, alienados, perdedores por achar que estes mesmo sendo muitos sempre serão menores.

Devaneios atemporais monologados por um sujeito oculto

Filosofia de boteco não tolera fiado mas bem que quando voltava pra casa só eu e um prendedor de roupas que encontrei no bolso, olhei pra ele e cheguei a pensar que talvez ele fosse um sinal de que eu tivesse que aprender a agarrar melhor o meu tempo, meu espaço e as coisas que desejo. Só que em horas de depreciação pública sou um meijengro, tenho miopia cerebral, e apesar do coração fazer circular o sangue em meu cérebro, é o cérebro que dita o passo lento do coração. Sei que viver é bom mas nem por isso agora to tão animado pra viver ( viver é saber se conter?)...perdoem-me mas as vezes acho que eu não sei mesmo como se deve viver. Minhas costas ardem e eu ainda não parei de ignorar o sol... disse a mim mesmo aquilo que eu ja sabia, mas as palavras não saíram pela boca, esta ficou muda e as palavras saíram pelas orelhas e foram embora enquanto eu ja tentava esquece-las. Quando se tem muitas portas pra abrir e for preciso escolher apenas uma única porta certifique-se de que tem a chav...

Cigarro apagado e não há pelo menos um fogo-fátuo por perto.

Herculano resolveu ascender um cigarro. Olhou sobre a mesa cheia de objetos espalhados e viu o seu maço. Um Minister, unique, king size, marque of excelence, distinction and quality. Herculano havia visto muitos desse quando era criança, viu muitos adultos como ele é agora ascendendo esse mesmo cigarro. Lembrou-se de vê-los fumando. Na época Herculano ainda não sabia que gosto um cigarro tinha, só sentia o cheiro, sentia a fumaça que as vezes ardia em seus olhos que mesmo assim conseguiam ver os adultos que conversavam uns com os outros parecerem tanto mais pensativos quanto falantes enquanto fumavam. Herculano então procurou pelo isqueiro. Não viu. Pensou numa caixa de fósforos, ele não tinha nenhuma. Ritualmente, Herculano havia organizado suas ações uma por uma. Limpou a casa, foi ao supermercado pois faltava algo pra preparar a comida. Voltou pra casa e sentou-se sozinho durante a refeição pois era quase três horas da tarde e todos que moravam com ele já haviam estado ...
A casa está mesmo sempre cheia de gente - diz a mente. Mas ela sabe que há um cômodo na casa que ela ainda não conhece por que quando ela quis entrar faltava luz e a mente bem que tentou abrir a janela mas esta já não era aberta há muito tempo e estava tão emperrada que a mente foi incapaz de abri-la. Agora apesar da claridade que entra pelas frestas na janela e pelas rachaduras nas paredes, a porta deste cômodo está muito bem trancada com grossas correntes, por que um dia a mente com medo do que pudesse haver lá dentro do cômodo, com medo de que ela ou alguém lá dentro pudesse se machucar, decidiu não deixar que ninguém mais entrasse no cômodo, e de tão convicta do que estava fazendo quando escondeu a chave, esqueceu-se de onde a possa ter colocado e nem mesmo se lembra que talvez pôde até ter jogado a chave fora. Sim, a casa está sempre cheia de gente - diz a mente, e ela só não se esquece que na sua casa tem um cômodo em que ela e nem qualquer outra pessoa que lhe fi...
Eu tenho um grande amigo, na verdade ele é pequenino mas pra mim passou a ser grande. Eu pensei no que eu as vezes tenho oferecido à ele além da minha ausência. Estou aqui sozinho por opção minha e fico imaginando o lugar onde ele está agora distante e talvez ele não se lembre de mim por que eu não estou lá com ele. Ele ainda não aprendeu a contar as horas e os dias, e por não saber juntar a ausência e o tempo não é ainda tolo o suficiente a ponto de querer definir exatamente o que é isso. Porém as vezes se resolvo aparecer, ele que também ainda mal aprendeu a falar, intuitivamente desconfia que em algum momento tornarei a partir de novo. Meu amigo é ainda tão pequenino e se volto a estar com ele é por que só ele é capaz de revelar em mim o que ainda resta de um menino, que como ele um dia fui e que só ao estar com ele eu ainda reconheço que fui e isso faz que eu sinta um bem enorme. Que saudades eu sinto agora dele, que não sei ao certo se me espera, mas sei que toda vez que estou p...

Miopótamo Cefalópode

Olha, não sei dizer muito bem o que é isso, mas prometo que logo que souber exatamente como definir esse bicho, eu juro que vou dizer. É que na verdade mesmo, esse bicho não existia. Não assim, desse jeito. Só lembro que eu tive um desejo muito espontâneo e que então precisei criá-lo. Mas tem sido difícil criar as coisas, por que no caso desse bicho, ele sequer sabia que existia até que eu conseguisse descrever todas as qualidades que ele tem. Ele passou a ter olhos só depois que eu os imaginei e só soube que seria míope, depois de eu ter lhe colocado esses óculos enormes. Ele notou que tem um brilho nos olhos que até lembram faróis, mas isso ele se pergunta até agora porque tem. Ele rói as unhas mas acha que nem por isso deveria ter um nome de roedor, na verdade ele achava que Miopótamo se referia apenas a miopia exagerada de seu próprio cria(r)dor. Ele agora percebe que sua cabeça é muito grande e que a maior parte das vezes mal consegue controlar os tantos membros que recebeu, ma...

Canto de acalanto

Olhei-a nos olhos e a abracei com ternura e depois beijando seu o rosto reparei quantos cabelos brancos ela já possuía. Senti então uma tristeza tão grande e profunda por um dia ter decidido deixá-la. Por que o tempo correu tão depressa e por que a gente teve que envelhecer? Por que eu desejei ficar sozinho mesmo cercado de tanto carinho? Por que é que apenas indo pra longe das coisas que amo é que eu pude entender o quanto eu as amo?  Abracei-a de novo ainda mais forte e ainda mais triste e ela pediu pra eu voltar assim que pudesse. Então eu parti de novo e saí mesmo debaixo de chuva pois estava se tornando cada vez mais difícil ter que partir. E eu confesso que eu quis tanto ficar ao lado dela naquele momento e eu queria cantar uma canção que a fizesse dormir e sonhar, assim como ela um dia também cantou pra mim e me fez sonhar com coisas que já nem me lembro mais. Queria tanto nessa hora que assim como ela eu também adormecesse e como um dia pude eu também sonhasse e aí então nos en...

O Relógio de Deus

Tive a sensação de que o tempo havia parado. O sol teimava em não querer esconder-se além do horizonte e a noite que eu tanto esperava não vinha. Sei que comecei a esperar um pouco mais pela noite justamente pela sua demora em chegar. Ah, eu que tenho tanta coisa pra fazer, resolvi não fazer nada só pra esperar pela noite. Justamente por que ela não queria vir hoje. Então as horas foram passando e eu continuei a contemplar o céu cinzento e chuvoso e a luz desse dia que resolveu como se tivesse vontade própria se alongar um pouco mais. Quem é que determina esse dia? Quem esse pensa que é pra achar que pode torná-lo mais longo do que os outros dias? E não falo que é mais longo só por causa de alguns poucos minutos, estou falando de horas, que se estendem no relógio como se o ponteiro exitasse um segundo a mais pra mudar para o próximo segundo além do segundo que lhe foi dado o direito e o tempo de ser o que sabemos que é segundo. Se hoje há relógios digitais precisos, um dia talvez c...

O bêbado anônimo e o esmagador de dedos

Isso foi há algum tempo atrás, durante uma gelada manhã. No meio da praça central da cidade, lá estava aquele ser tão miserável e desprezível deitado no chão. Em seu fedor de álcool e suas roupas imundas ele pouco se importava, pelo menos até seu último gole, a dose que fora suficiente pra lhe fazer perder os sentidos, pra que assim então desprevenido aquele sujeito mundano, adormecesse na rua em frente a uma igreja aonde havia um muro em que estava pintada a imagem de Cristo. Um muro que talvez não devia sequer existir, mas que estava ali e foi onde aquele homem também pois pra dormir todas as suas angústias, num momento de desatino. Dormiu feito um menino, o homem. Descoberto naquele chão duro e frio como a parede em que estava pintada aquela imagem e a frase que lhe dizia: - Venha! Este é o caminho! Quem pode dizer o quanto desesperançoso aquele bêbado imundo estava antes de ali ter caído. Caiu feito um tijolo e desejou lá no fundo que aquilo fosse verdade e que realmente aquele f...

Ema, ema, ema?

Seu nome era Carlos Silva, como tantos Carlos que há por aí e como muito mais Silvas ainda. Gente simples, com problemas tão comuns quanto muitos que também já foram inventados. Mas Carlos já entendera bem isso. Também, com tantas vezes que insistiram em lhe ensinar, que embora tivesse os seus próprios problemas, havia tantos outros que talvez tivessem ainda mais. Alguns talvez fossem maiores, outros talvez bem menores, mas o que Carlos aprendera também é que as vezes o tamanho dos problemas depende do ponto de vista. E que por isso as vezes era preciso ignorar o que se via e tentar não levar isso tudo tão a sério. Era então uma manhã de um dia como outro qualquer. Carlos se levantou sem nem ao menos ter dormido bem. Os seus problemas não o haviam deixado dormir direito. Mas apesar disso, Carlos achou que talvez hoje estivesse com sorte , pois quando chegou ao hospital, sem que o dia nem sequer tivesse clareado ainda, foi logo o primeiro da fila. Sabia que esperaria algumas hora...

Tempestade em copo d'água

Me lembrei que um dia brincava de esconde-esconde com outras crianças, eu devia ter uns oito anos no máximo. Me lembrei que corria pelos terrenos baldios que cercavam minha casa, naquela época não haviam mais que seis casas no quarteirão inteiro, as ruas eram de terra e o asfalto mais próximo passava longe dali. Eu corria muito tentando fugir e me esconder pra durar mais tempo na brincadeira, o mato alto fazia de qualquer canto um belo esconderijo, mas eu sempre buscava o lugar mais inacessível pra tentar dificultar a tarefa do pegador. Só que nesse dia eu não tive tanta sorte, tropecei numa pedra ou nas minhas próprias pernas e caí todo desengonçado em cima de um tronco de árvore muito pequeno, o tronco soltou uma farpa que mais parecia um toco de lápis, a farpa enorme entrou na minha perna causando um dor terrível, em apenas alguns minutos eu ja suava frio de dor e tive que desistir da brincadeira. Fui pra casa e quando entrei vi minha mãe que passava roupa, sentei na escada com...
Hoje resolvi não sair de casa, preciso fazer isso por um tempo, ando cansado e os últimos acontecimentos me fizeram chegar a conclusão de que preciso de um tempo pra pensar. E nesse mesmo instante, como quase sempre, sinto me vazio de ações, tento escrever mas uma incerteza me consome e me parece que o modo como vejo tudo é diferente do que vêem a maioria das pessoas. E eu me forço a estar entre o que me desagrada. Pode isso realmente me ajudar a compreender as coisas? O quanto seria isso verdade se eu mesmo não sei o quanto estou pensando por mim mesmo ou estou tentando me encaixar na idéia que fazem de mim? Sei que tenho a opção de estar sozinho mas sei o quanto também dependo das pessoas e isso também não é em apenas um sentido, uma necessidade, a vida numa sociedade capitalista como a de hoje exige que se seja bom, pra se ter um emprego, exige que se pague por tudo, pra nascer, pra se ter um nome até que por fim também pra morrer. Tudo é disputado desde com certa cordialidade e...

Memoris

A cada passo que dei desejei a existência de intensidade, a cada instante. senti demaziadamente tudo, tudo o que talvez fosse um buraco, uma pedra ou um afago de quem não se espera o que também me fez ter atitudes de alguém que eu não era. Busquei afago nas folhas das árvores quando voltava pra casa cansado mas feliz por poder fazer bem para alguém à quem queria bem e fiz questão de esfregar a testa em cada folha, de cada árvore e prestar atenção em cada cheiro e atravessar a rua quantas vezes fosse necessário pra que não me faltasse nenhuma delas. Arranquei os sapátos certa vez no mesmo percurso, quando chovia e caminhei como quem anda sem ter onde chegar E tudo o que me importava era poder sentir a água que caía, olhar pro céu e já em meio a um profundo silêncio sentir-me bem. Mas a vida passa e na mesma vida sigo caminhando as vezes sem saber pra onde, passam-se os anos, certas coisas se repetem e assim repeti o mesmo gesto de sozinho caminhar, só que desta vez estava me sentindo...
Noite passada eu tive um sonho e me lembro de ter voado a noite inteira. Parecia que fugia da policia por ter sido acusado de um crime que eu não cometi. Havia quem acreditasse em mim, mas tive que ir pra longe pra não perder minha liberdade. E eu voei, pra muito longe sempre procurando um lugar pra me esconder ou alguem que pudesse me acolher. Então num outro dia, mais tarde, de repente eu me vi voltando pra casa por uma estrada escura, os caminhões e carros que passavam me davam uma nítida impressão da morte sempre perto. Eu corria sem ter pra onde e com medo por pelo menos cinco minutos até a próxima saída. Imaginando a morte que nos chega em qualquer instante, ansioso, coração acelerado. Nos meus sonhos eu voô mas eu sempre sinto a gravidade, esta me puxa pra baixo e me mostra o quanto tenho que estar atento pra não cair; não por ter medo de cair, em sonho meu medo inexiste. Certa vez sonhei que estava numa sangrenta batalha e com minha espada em punho sentia a lamina abrindo...