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Canto de acalanto

Olhei-a nos olhos e a abracei com ternura e depois beijando seu o rosto reparei quantos cabelos brancos ela já possuía. Senti então uma tristeza tão grande e profunda por um dia ter decidido deixá-la. Por que o tempo correu tão depressa e por que a gente teve que envelhecer? Por que eu desejei ficar sozinho mesmo cercado de tanto carinho? Por que é que apenas indo pra longe das coisas que amo é que eu pude entender o quanto eu as amo? 
Abracei-a de novo ainda mais forte e ainda mais triste e ela pediu pra eu voltar assim que pudesse. Então eu parti de novo e saí mesmo debaixo de chuva pois estava se tornando cada vez mais difícil ter que partir. E eu confesso que eu quis tanto ficar ao lado dela naquele momento e eu queria cantar uma canção que a fizesse dormir e sonhar, assim como ela um dia também cantou pra mim e me fez sonhar com coisas que já nem me lembro mais. Queria tanto nessa hora que assim como ela eu também adormecesse e como um dia pude eu também sonhasse e aí então nos encontrássemos no mesmo sonho voando juntos no azul do céu até um lugar onde nos víssemos novamente jovens, crianças vivendo em êxtase de uma felicidade incontida, irmãos brincando juntos por toda a eternidade embriagados de alegria e vida.
Mas eu parti e ela nem sabe se acaso vai me encontrar se deixar aquele ninho pra voar por aí a minha procura. Quando eu resolvi sair do ninho pra que ela entendesse que as asas que ela me deu também foram feitas pra quem precisa voar, não foi completamente que parti, muito de mim ficou ali com ela assim como muito dela carrego comigo. Só que as vezes se algo não está diante dos olhos não tem sentido nenhum ou razão de que se tem realmente preenchido o vazio deixado no coração. E eu sei que apesar do vazio que ela sente e de ela estar triste, ela quer ser capaz de compreender o que eu digo pois apesar de já ter suas asas cansadas ela voou o bastante na vida e a vontade de pousar um dia também chegou e ela então cumprindo o seu destino no tempo devido construiu seu ninho e é aqui que eu sei que sempre terei um abrigo. 
Mas eu precisei partir pra também seguir meu destino e sozinho do alto do ninho então me jogar. Por que no fundo eu sabia que já não era mais passarinho, eu era pássaro que um dia sentiu um vazio por descobrir que ainda não havia aprendido a voar.

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