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Uivo

Quando um cão uiva não há dúvida alguma de que o uivo do cão cresce na raiz de seus ossos. Cão algum uiva sem ter razão, e estando uma única vez esse cão predisposto e preparado pra tanto, fatalmente e por toda coragem que tem, ele mesmo já admite pra si o tanto que lhe deve doer ter que deixar tantos ossos espalhados e a mostra só pela necessidade de um único uivo. Mas nem por isso esse cão se confunde diante daquilo que o cerca. De algum modo, por mais que seu esqueleto e espírito estejam ambos perdidos, espalhados ou simplesmente não passem de boa parte do que agora jaz integrando-se ao pátio, esse cão ainda que desossado, observa uma peça de roupa branca dependurada no varal, uma pilha de tijolos mofando num quanto qualquer e ainda assim se admira. Quanta coisa me aproxima desse ser canino que obviamente pertenceu a um dono mais do que descuidado e indigno. Coisas que os meus ossos ainda não sentem na pele e que os meus olhos ainda não veem. Se eu percebo o quanto sou míope, mais a miopia me distancia do cão. Se eu acredito que tenho com ele uma afinidade e um parentesco enorme, aí vem o cão e late de volta pra mim. Que cão é este que me compreende e vê com maior profundeza do que a minha própria natureza é capaz de me permitir? Agora mesmo, ao encarar de perto tal cão zarolho, percebi que há um oceano enorme e gelado pesando em sua garganta. E apesar disso, de tão resolvido que este cão desgraçado ainda é, não me empresta qualquer nitidez pra que eu me possa enxergar só um pouco melhor do que ele.

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...) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus (...) anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que nunca fui disciplinado por virtude, mas como reação contra a minha negligência; que fiz questão de parecer generoso para encobrir a minha mesquinhez, que só passei por prudente por ser pessimista, que fui conciliador por não querer sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só fui pontual para que nunca soubessem que pouco me importava o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor nunca passou de um estado de alma mas que apesar e além disso também foi um dos mais belos signos de todo Zodíaco. Gabriel García Marquez - Memória das Minhas Putas Tristes
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